quarta-feira, 13 de abril de 2011



Resenha
O filme Billy Elliot (2000) é um bom ponto de partida para discutirmos questões como diversidade e intolerância. A película conta a história de um garoto de 11 anos que decide trocar as luvas de boxe pelas sapatilhas de balé.

O filme
A trama se passa no Reino Unido, durante o governo da primeira ministra Margaret Thatcher, tendo como pano de fundo uma da mais sérias crises sociais, a greve dos mineiros. O pai do garoto, que é órfão de mãe, integra a categoria, sendo um dos que mais incitaram o movimento dos trabalhadores, juntamente com seu outro filho, irmão de Billy. O conflito faz com que a família, já limitada economicamente, tenha ainda mais dificuldade em se manter.
Não bastasse isso, o sensível Billy cresce num ambiente extremamente masculinizado e machista, como indicam algumas falas e situações. A única figura feminina presente, que rompe um pouco com esse universo, é sua avó doente, que por vezes, esquece até que ele é seu neto, ainda que o garoto seja o encarregado de cuidá-la.
Apesar dos problemas financeiros, o pai de Billy faz questão de arrumar os 50 pences todo mês, destinados às aulas de boxe do jovem. Durante uma das aulas o instrutor avisa que os garotos terão que dividir o ginásio com uma turma de bailarinas, que a partir de então farão aulas ali. O olhas de Billy é de encantamento assim que vê o piano sendo trazido para o local, já que ele, que tem o instrumento em casa, é reprimido pelo pai quando quer tocá-lo, não podendo exercitar sua sensibilidade.
Contudo, o que Billy não esperava era apaixonar-se pelo balé. Logo ele, que certa ocasião havia dito a uma amiga que o convidou para a aula que aquilo era coisa de bicha. Depois de levar uma bronca do instrutor que o obriga a ficar treinando até mais tarde, ele vai até a sala de dança entregar as chaves para a professora e fica em estado de graça com o que vê. A mulher o desafia a trocar as botas do boxe pela sapatilha e logo percebe o talento que o menino tem para a dança. Assim, Billy ganhar sua primeira sapatilha e passa a fazer aulas escondido de todos, já que é o único menino naquele ambiente. Mas não sem ouvir comentários negativos. “Pra mim você era macho”, diz o pianista quando ele executa uma espetacular pirueta.
Porém, ele não é capaz de esconder a prática por muito tempo. Além de notas as mudanças em seu comportamento, o pai descobre que as aulas de boxe não estão sendo mais pagas. Quando chega ao ginásio, surpreende Billy envolvido em seus passos de balé clássico. O homem arrasta o filho do local e discute com ele: “Balé é coisa pra bicha”. Além disso, até seu ex instrutor de boxe lhe diz que é uma vergonha para “suas luvas, para o pai e para a academia”. Billy tenta explicar para o pai que muitos bailarinos são como atletas e que nem todos são homossexuais por gostarem de dançar. Mas o homem não aceita. Não há diálogo, apenas intolerância. Definitivamente, para ele balé é algo “errado”, “frescura”. Pai e filho praticamente entram em luta corporal e Billy é obrigado a abandonar as aulas.
Mas com sua vocação para a arte o jovem não consegue ficar muito tempo afastado do balé. Até porque sua professora o inscreve num concurso que vai selecionar alunos para o Balé real e os dois passam a treinar escondidos. E é num desses encontros que Billy lhe mostra uma carta escrita por sua mãe antes de morre, onde ela diz que sempre o amará e pede para que seja sempre ele mesmo. Não por muito tempo. Logo o pai do garoto descobre mas, sensibilizado com a oportunidade de uma vida melhor que a dança pode trazer para a vida de seu filho, apóia a investida. Ele até mesmo volta ao trabalho para poder conseguir dinheiro para a viagem.
Como não poderia deixar de ser, Billy realiza seu exame com perfeição e consegue uma das vagas na escola. Com emoção despede-se da família, da professora e de seu melhor amigo, parceiro durante algumas cenas, que por sinal é gay e não dança. O filme termina com ele já adulto numa apresentação em que é o bailarino principal do “O lago dos cisnes”, tendo seu pai, irmão e o amigo gay – aqui totalmente feminino – na platéia.

O debate
O que pode ser levantado para debate após assistir o filme é até que ponto respeitamos o outro como ele é, com todos seus interesses, opções e opiniões. Billy não é respeitado porque é diferente dos outros garotos. É sensível num mundo machista. O pai e a maior parte das pessoas com as quais ele convive lhes dizem que meninos não dançam, meninos jogam futebol e lutam boxe. E mais: afirmam que homem que dança é homossexual. “Bicha” ou “Maricas”, para utilizar a expressões colhidas do filme. Aqui há uma redução da identidade. Meninos devem ser enquadrados em determinados comportamentos, culturalmente tidos como normais e o que se passa fora dessa moldura, desses limites, é tido como anormal. Os indivíduo com opções sexuais não tradicionais, por exemplo, aqui são vistos como tendo desvio de caráter, já que a família assume que teria vergonha se Billy fosse gay.
Além disso, podemos ir além: A preocupação, no meio social retratado no filme, não se restringe a um sentimento particular paterno, ou familiar. O que mais incomoda é o fato de que os vizinhos, colegas, a sociedade enfim vai comentar sobre a atitude de Billy, o que acabaria desqualificando moralmente seus próprios parentes. E aqui o desconforto é muito mais latente. Naquela época, numa sociedade extremamente machista, na qual os homens da casa apelam até para violência para conseguir seus direitos, é inadmissível que um garoto tenha sua sensibilidade aflorada e voltada para as artes, seja piano ou balé. Naquele ambiente árduo, duro, das minas de carvão, não há espaço para isso. Meninos como Billy eram criados para seguir os passos do pai. O macho, o forte. É a luta, o boxe. Nada da leveza dos movimentos do balé. Ai a vida é uma luta diária. E tudo isso influi na opinião que os personagens tem da arte e do que consideram adequado para um indivíduo do sexo masculino.
Portanto aqui devemos nos atentar para dois caminhos que o debate pode tomar: O do indivíduo que opta, ou gosta, de se relacionar com pessoas do mesmo sexo e que deve ter seu interesse respeitado; e o indivíduo que não se encaixa no roteiro traçado culturalmente como mais adequado para sua pessoa – o que se espera de um homem ou mulher, por exemplo – mas que nem por isso deixa de ser heterossexual. Apesar de serem situações diversas, a defesa resume-se no livre arbítrio de agirem da maneira como quiserem. Não devemos julgar as pessoas que tenha opiniões, interesses sexuais ou hábitos, costumes diversos dos nossos.
O fato é que um dos pontos que chama a atenção no filme é a falta de diálogo. O próprio protagonista, em certa altura, diz que balé é coisa de bicha. Ora, ele diz isso porque cresceu ouvindo esse comentário. Ao tomar contato com a arte percebe que o homossexual pode ser bailarino, mas nem todo bailarino é homossexual. E o mais importante: Ambos os casos merecem respeito. Deste modo, pode-se concluir que o melhor caminho para aceitar as diferenças é o conhecimento. É ele que leva ao diálogo, ao debate, que vai gerar a tolerância e o respeito com a diversidade.
Portanto o filme Billy Elliot é um bom estímulo para se discutir a diversidade sexual, a diversidade de opiniões. Devemos lutar pela queda dos rótulos, pois pessoas não se resumem a etiquetas e não podem ser definidas e condenadas a partir de um gosto em particular. Não devemos criticar seu caráter, condená-las moralmente por atos como esse. O filme é o mote para apresentar novas realidades e perspectivas. A partir dele podemos eleger três questões para discussão: O respeito pela diversidade sexual; o respeito pela diversidade cultural ou profissional e o respeito as pessoas que não se encaixam no padrão histórica e culturalmente imposto.

Ficha técnica:
Titulo original: (Billy Elliot)
Lançamento: 2000 (Inglaterra)
Direção: Stephen Daldry
Atores: Julie Walters , Jamie Bell , Jamie Draven , Gary Lewis , Jean Heywood
Duração: 111 min
Gênero: Drama
Desenvolvimento X Preservação ambiental: Uma trégua pela vida

“Somos os maiores poluidores do mundo, mas se for preciso poluiremos mais para evitar uma recessão na economia americana”. A fala do ex-presidente dos Estados Unidos, George Bush, ilustra as bases da sociedade capitalista, na qual somos motivados a consumir, ter, lucrar, ganhar cada vez mais. Tal lógica não se restringe apenas ao comportamento individual e influencia também o interesse das nações. E não somente o das mais ricas, já que os chamados países subdesenvolvidos almejam atingir o mesmo patamar econômico que os de “primeiro mundo”, só que, a exemplo de Bush, pouco refletem sobre as conseqüências negativas dos seus excessos sobre o meio ambiente.
Essa necessidade de movimentar a economia a qualquer custo faz com que se confunda desenvolvimento com crescimento. Este é feito de modo desordenado, desenfreado, “atropelando” tudo o que encontra pela frente; aquele é estudado, planejado, considera o todo e visa não apenas aumentar os lucros ou melhorar de forma imediata a qualidade de vida da população, mas reflete acerca das consequências a longo prazo. Ou seja, é feito de maneira sustentável.
Entretanto, o conceito de desenvolvimento sustentável, que prega o uso racional dos recursos naturais, para satisfazer as necessidades atuais, preocupando-se em preservá-los para as futuras gerações, é recente. Foi só nos anos 70 que a Organização das Nações Unidas (ONU) promoveu o primeiro evento de proporções mundiais para discutir o assunto. Portanto, o mundo ainda dá os primeiros passos no que diz respeito aos cuidados com a natureza e ao desejo de reparar danos e abusos que vem sendo cometidos há séculos, motivados especialmente pelo processo de industrialização, assim como por certo avanços científicos e tecnológicos. E hoje as variáveis ambientais já começam a ser incorporadas na medição do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Só que embora ações como essa venham sendo tomadas, a batalha para conciliar desenvolvimento e preservação ambiental continua. E, para que essa convivência venha a ser pacífica, planejamento é uma das principais estratégias.
Mas quando se fala em harmonizar interesses, uma mudança de valores é fundamental. Além de promover a conscientização sobre a ajuda que certas atitudes podem dar ao meio ambiente, como o simples ato de não deixar uma torneira pingando ou de ir trabalhar a pé, deixando o carro na garagem, é necessário repensar e diminuir o consumo, adotando hábitos saudáveis, como a reciclagem e reutilização de materiais. E ainda, especialmente no caso do Brasil, deve haver maior investimento em pesquisas científicas e tecnológicas sobre formas de reaproveitamento de materiais para fabricação de todo tipo de produto, reduzindo impactos no ambiente e o uso de matérias primas, além da busca por novas fontes de energia, que não afetem a camada de ozônio e não aumentem os níveis do chamado aquecimento global, bem como métodos de tratamento de resíduos e de esgoto. Deve-se investir e intensificar estudos sobre os efeitos que todas as construções ou práticas industriais provocam no ecossistema, até porque se uma fábrica, por menos poluição que provoque, corta árvores e planta mudas no lugar, de modo a compensar o dano, esse não se restringe meramente a derrubada daquele trecho da mata natural e pode desequilibrar toda uma região. Esse é o tipo de controle que já ocorre no chamado licenciamento ambiental.
Diante disso, a postura das empresas frente às questões ambientais deve ser um diferencial, que influencie seus lucros. Assim como aquelas que desenvolvem políticas sócio-ambientais costumam ser valorizadas no mercado, pois existem até certificações, exigidas por muitos países, que garantem que determinado produto foi feito seguindo regras de proteção ao ambiente, as que agridem a natureza deveriam ser condenadas e sofrer sanções. Também podem ser executadas leis que reduzam os tributos das que são mais responsáveis nas suas atividades e multem, ou aumentem os impostos, daquelas que não procuram rever suas práticas, revertendo parte desses recursos para projetos sociais, por exemplo. O mesmo pode se dar na hora de comprar um produto: O consumidor o avaliaria não só em relação ao preço e à qualidade, mas também àquilo que está embutido na sua fabricação, como o número de árvores derrubadas, ou o volume de gás carbônico que a empresa emite, assim como o gasto de água em relação ao tempo que a natureza levará para reconstituir o ecossistema, por exemplo.
E no Brasil temos uma questão ainda mais séria: o desmatamento da floresta Amazônica, prática que já se tornou verdadeira epidemia. Para combatê-la, a fiscalização deveria ser maior, com mais pessoal e mais tecnologia, e aqueles que não seguem a legislação deveriam ser punidos, assim como os que exploram a biopirataria, “de olho” nessa riqueza natural. Afinal, trata-se de um terço da reserva de água doce do mundo e de metade do território brasileiro e que influencia fortemente o clima mundial. Contudo, deve-se buscar alternativas para que aquela área também seja aproveitada economicamente, mas de forma responsável, já que na região a exploração da terra e das árvores não beneficia somente grandes madeireiras ou fazendeiros latifundiários, mas também gera empregos para a população local. Ou seja, as questões ambientais, não só na Amazônia, como em todo lugar, tem suas nuanças socioeconômicas. E nessa região especificamente, que por muito tempo foi um tanto esquecida, deve-se olhar para aqueles que tem na floresta sua fonte de renda, de sobrevivência e estimular sua exploração ecologicamente correta, para que não aumente também a exclusão social.
E já que a situação se agrava a cada dia, o Estado poderia implantar uma política pública que, mesmo um tanto polêmica, poderia ajudar na redução do consumo, além de atenuar outros problemas sociais e de renda: o controle da natalidade. Claro que não de maneira radical, restringindo, de forma obrigatória, o número de filhos por casal, mas sim oferecendo orientação sobre métodos contraceptivos e esclarecendo sobre como a adoção dessas pode ajudar na preservação do meio ambiente, ainda que essa seja uma medida bastante controversa, inclusive nos seus resultados.
Outra questão central é a de que os grandes responsáveis pelos danos provocados ao meio ambiente são os países ricos: mais industrializados, consomem mais, produzem lixo e gastam mais energia. Isso é fato, mas não é motivo para que os países em fase de desenvolvimento acreditem que tenham uma cota em a ver no mercado da poluição e degradação do meio ambiente. Claro que países pobres e emergentes não deixarão de consumir, contudo, devem buscar novas formas de desenvolvimento, não cometendo erros semelhantes aos dos mais ricos. Até porque o planeta não aguentaria, como refletiu Gandhi, em documento publicado pela ONG World Wildlife Fund (WWF): “a Grã-Bretanha precisou de metade dos recursos do planeta para alcançar sua prosperidade; quantos planetas não seriam necessários para que um país como a Índia alcançasse o mesmo patamar?”
E para que todos tenham essa consciência a educação ambiental é uma ótima aliada. Ao promovê-la desde a infância, os hábitos são criados e arraigados ao comportamento das crianças, fazendo com que o discurso ambientalista e as práticas como reciclagem, uso responsável dos recursos naturais e redução do consumo, entre outras coisas, por exemplo, que por vezes podem soar maçantes para os adultos, sejam hábitos cotidianos, naturais para eles. Assim essas pequenas ações, que sozinhas parecem não impactar em nada, juntas são capazes de operar milagres.
E por fim, depois de tanto refletir sobre as formas de harmonizar interesses que a primeira vista parecem tão opostos quanto razão e emoção – desenvolvimento X meio ambiente – conclui-se que eles se conciliariam facilmente caso notassem que, na verdade, o que gera o conflito são, basicamente, fatores econômicos. O mundo deve despertar para o fato de que o planeta adoece cada dia mais enquanto cotas de poluição são comercializadas. Portanto, é chegada a hora de, numa atitude altruísta para alguns, sensata para outros, considerar o bem maior que está em jogo: a vida. Até porque, por mais banal que pareça a conclusão, se continuarmos nesse ritmo, em breve a possibilidade de existir vida no planeta Terra estará esgotada e ai nos daremos conta de que exigimos tanto da natureza que acabamos por destruí-la, de tal modo que ela não será capaz sequer de nos oferecer condições mínimas de sobrevivência. Como bem alertou o chefe da tribo americana Suquamish, em carta enviada ao ex-presidente Franklin Pierce, “o que fere a terra, fere também os filhos da terra. O homem não tece a teia da vida; é antes um de seus fios”. Assim, o respeito, a solidariedade e o direito à vida, não só dos seres humanos, mas de todos os organismos vivos deve prevalecer sobre o egoísmo capitalista. E esse é um argumento certeiro, que por si só deveria ser capaz de revolucionar hábitos e valores.
Atividade sobre o texto “Um pouco de história: origens e expansão do português”, do livro “O português da gente – a língua que estudamos, a língua que falamos”, de Rodolfo Ilari e Renato Basso, produzida para a disciplina Morfossintaxe

Análise temática

No texto “Um pouco de história: origens e expansão do português”, para falar sobre a evolução da língua os autores Rodolfo Ilari e Renato Basso recorrem não só ao período de vida do que conhecemos como português, mas fazem uma viagem até suas origens latinas, mostrando-nos que existiram três variedades de latim: o eclesiástico, o literário e o vulgar, sendo que nossa língua derivou desse último, assim como o francês, o espanhol e o italiano.
Ilari e Basso nos contam como a língua foi se estruturando, evoluindo nas suas características sintáticas e fonéticas, afirmando que sua riqueza de flexões nominais e verbais são heranças latinas. Os autores defendem que não houve rupturas entre a língua falada na sociedade portuguesa, anterior ao descobrimento do Brasil, e a que se fala hoje, mas sim uma evolução. Não há mudanças bruscas, mas graduais, até porque uma língua só morre quando não existem mais falantes nativos. O que ocorre na verdade é uma transformação, devido ao seu dinamismo.
E todas essas explicações vem acompanhadas dos fatos históricos que as desencadearam. Assim, eles procuram relacionar o surgimento e evolução do latim com a expansão do império Romano; as invasões bárbaras com o aparecimento de novos falares; a ocupação árabe e o fato de usarmos várias palavras originárias dessa cultura, ainda que o movimento de Reconquista tenha expulsado esses povos daquela região. E em meio a tudo isso a nossa língua vai se formando, adquirindo as características que tem hoje, que a tornam tão rica.
Já o período das grandes navegações colaborou para a difusão, ainda que imposta, do português, que em troca recebeu a influência dos falares dos povos colonizados. Como efeito dessa lusitanização, hoje o português é o oitavo idioma mais falado do mundo e, de acordo com os autores, só não é uma das língua oficiais da Organização das Nações Unidas (ONU) porque os países que o tem como língua oficial não tem peso político e econômico significativos, tampouco tecnologia avançada e um mercado para consumo de produtos midiáticos e editoriais. Devido a isso o português também não é muito procurado quando se trata de estudar um idioma estrangeiro, ainda que tenha sido muito estudado na França, por exemplo, até por conta do grande número de portugueses que migraram para lá.
Outro preocupação dos autores é de mostrar que existem controvérsias quando o assunto é o nascimento e periodização de uma língua, trazendo até uma tabela, com o ponto de vista de vários pesquisadores sobre as “eras” da língua portuguesa. E para mostrar de forma mais clara as modificações da língua, o livro é repleto de textos que as exemplificam.


Análise interpretativa

Se a proposta dos autores Rodolfo Ilari e Renato Basso era nos mostrar “Um pouco de história: origens e expansão do português” eles certamente podem comemorar, pois foram felizes nesse objetivo. Com um texto leve e linguagem simples, mas não sem os cuidados e a profundidade devida, eles nos guiam numa viagem até os tempos mais remotos de nossa língua e de forma didática nos trazem informações que muitas vezes não são transmitidas para os falantes durante sua formação, ainda que a título de curiosidade.
É interessante a forma como eles procuram relacionar as origens e a evolução da língua portuguesa com a história e os fatos que modificaram política e culturalmente a Europa, especialmente a região de Portugal, mas que também tiveram reflexos profundos na nossa língua, como a convivência com outros povos que fizeram com que até hoje usemos muitas palavras de origem árabe, ou ainda a influência que o castelhano teve na nossa fonética, por causa do período em que Portugal foi dominado pelos espanhóis, por exemplo.
Outro diferencial é que os autores buscaram enriquecer suas explicações com textos de diversos tipos das épocas retratadas no livro. Por isso, temos desde poemas até textos jurídicos; de textos noticiosos até a carta de Pero Vaz de Caminha, quando da chegada dos portugueses ao litoral brasileiro. Outras fontes esclarecedoras são a “árvore genealógica” do português e um quadro que esquematiza a periodização da língua de acordo com o ponto de vista de diferentes estudiosos.
Uma curiosidade é que desde o seu surgimento o português apresenta variações, vocabulário e escrita próprios, dependendo do público a que se dirige. Assim tínhamos o latim literário como língua dos documentos oficiais e os documentos destinados ao restante da população escrito nos falares cotidianos. Isso mostra que o domínio da língua era uma questão de diferenciação social, e que favorecia o contato com os documentos oficiais importantes. Afinal, aqueles que não tinham conheciam a norma culta da época acabavam não tendo acesso às leis, por exemplo, assim como ocorre até hoje. Isso serve para ilustrar a importância de se dominar todas as variantes da língua, especialmente a culta, adotada na produção científica e jornalística, ainda que em determinadas situações recorramos a outros falares. E para um futuro professor ter consciência disso é muito importante, pois só assim poderemos mostrar para os alunos mais um dos benefícios de se conhecer a norma culta. Ou seja, devemos ser poliglotas na nossa língua materna, como já disse Bechara. Compreendendo todas as informações disponíveis, em todas suas variantes, a língua não se torna mais um meio de dominação ou de exclusão social.
E já que o assunto é a diversidade linguística, outra consideração importante feita no livro é que o português não derivou do latim eclesiástico nem do literário, mas do vulgar, que era falado pelos soldados e comerciantes romanos durante as suas conquistas. Ou seja, o português é uma língua vernácula, o povo é que construiu essa língua e a tornou aquilo que ela é hoje, lapidando sua escrita e fonética. Portanto, não se deve encarar de forma tão negativa as mudanças, nem ser tão ortodoxo no que diz respeito a suas regras, especialmente na fala. Mesmo porque os teóricos da gramática normativa podem até “bater o pé”, mas não pode obrigar ninguém a segui-la fielmente.
Diante disso, devemos ser mais receptivos e encarar as mudanças com mais naturalidade, analisando o que elas trazem de bom para a comunicação e no que facilitam o uso diário do português, que no fundo é a verdadeira razão de ser de uma língua. Até porque que em pleno século XIV, quem diria que Vossa Mercê, na época forma de tratamento destinada exclusivamente ao rei, seria transformado e usado de cotidianamente pelo povo, tornando-se o pronome de terceira pessoa do singular mais comum: Você. Aliás, tal forma atualmente aparece escrita como “VC” ou mesmo “C”, devido a necessidade de agilidade na comunicação via internet, por exemplo.
Outra questão sobre a qual podemos refletir é o fato de que, apesar de o português ser a oitava língua mais falada do mundo, ele ainda não foi adotado como língua oficial da Organização das Nações Unidas (ONU). Percebe-se assim que o valor de uma língua está relacionado ao retorno comercial que seus falantes proporcionarão para o mercado, por exemplo, ou ainda a influência política de cada nação no mundo. Ou seja, pouco importa o lado humano, o número de pessoas que a falam, que a utilizam no dia a dia. O que interessa é o peso econômico e político, que faz com que línguas como o francês, que apesar de terem menor número de falantes, sejam escolhidas pela ONU, ainda que nesse caso ele seja considerado uma “línguas de cultura”. Em suma, novamente a língua é reduzida a mercadoria, a instrumento de exclusão.
Essa leitura é bastante prazerosa, especialmente para os interessados na língua, sua história, características, variações, curiosidades e possibilidades, inclusive de melhora do ensino, por meio dos questionamentos que suscita. E para os profissionais da área de Letras é uma fonte instigante, uma bela forma de iniciar suas pesquisas, dando um panorama geral sobre vários assuntos relacionados a língua, pois não é tão profundo a ponto de ser incompreensível para aqueles que nunca tiveram contato com o assunto, mas também não é superficial, é didático e traz informações novas e importantes com esmero, além do cuidado de indicar muitas fontes bibliográficas para futuras leituras. E apesar de ser considerado um livro técnico é muito agradável, daqueles que não conseguimos parar de ler.
A opacidade do discurso político
Dominique Maingueneau, professor da Universidade de Paris XII, analisou o discurso político do ex-candidato à presidência francesa, José Bové, durante palestra realizada na última terça, 14 de setembro de 2010, no teatro Véritas, da Universidade do Sagrado Coração. Durante sua apresentação Maingueneau desteceu os fios que dão unidade ao panfleto que o candidato encaminhou a todos os eleitores franceses durante o período eleitoral, os quais foram organizados de modo a criar uma imagem do político José Bové, como sendo uma alternativa, um candidato “diferente”, como o próprio Bové se autointitulava, marcando sua posição como a nova esquerda política.
O professor procurou mostrar como por meio de uma mera disposição das palavras um candidato acaba construindo um discurso vazio, de pouco conteúdo. E uma vez que algumas palavras chave estão jogadas, como “sindicalista”, “trabalhador”, “camponês”, sem qualquer aprofundamento, seu discurso, repleto de indeterminações semânticas, está sujeito a qualquer interpretação.
Já na sua primeira fala o candidato se apresenta como “diferente dos outros” e afirma não pertencer “a nenhum partido político”. No entanto, garante ser o “porta-voz de um agrupamento”. Ora, que agrupamento é esse. Afinal, essa ideia é de um certo número de pessoas unidas por uma causa, algo passageiro. Um partido, ao contrário, transmite a ideia de permanência, mais solidez. A noção de agrupamento seria apenas para justificar o fato de não pertencer a partido algum e uma solução verbal para um problema de coerência: Se ele não pertence a nenhum grupo político organizado, como se mostra como um porta-voz.
Bové procura se mostrar como uma alternativa moderna, uma nova esquerda, que incorpora nos seu discurso novos temas e preocupações mundiais, aliando feminismo e preocupação social, preocupações trabalhistas e ambientalistas. Muito esclarecedora também a relação a que Dominique chega ao analisar melhor o texto. Algumas passagens, frases, remetem o leitor à Queda da Batilha, um marco na história francesa, e convida-os para que a retomem. Ou seja, as palavras escolhidas aqui são cheias de significado histórico. Outras passagens, por sua vez, fazem referência ao hino do partido comunista
No panfleto do candidato temos também sua imagem frontal: A foto de sua face, mirando-nos como quem nos dirige a palavra olhando-nos nos olhos. A imagem é pacífica, com um fundo verde e azul, como seus olhos e reflexo da preocupação com a questão ambiental. O rosto é de um trabalhador, já marcado pelo tempo, com o bigode característico dos operários, sem abandonar a camisa xadrez, marca do camponês francês. Maingueneau nos diz que o rosto é a parte mais nobre do corpo humano, pois nos transmite ideias, valores e o mais importante, não tem contexto. O rosto é sempre o rosto. Pode-se estar com seus melhores trajes ou dentro de uma banheira, o rosto pode ser recortado e utilizado, permanece o mesmo. Ele é capaz de passar a noção de identidade e nesse caso específico o recorte da imagem mostra o homem que é a encarnação da união de três conceitos: ecologia, homem do campo e operariado. É o corpo encarnando o próprio discurso. Aliás, não por acaso encima dessa imagem temos uma frase solta “Um outro futuro é possível”, assinada por José Bové. Ai, de acordo com Maingueneau, não temos o político falando. A frase está fora do texto, ou seja, não tem gênero, é o sujeito total que se despe de tudo e nos mostra o homem que é. É o homem Bové, revelando-nos suas crenças, não só para os seus receptores enquanto eleitores, mas para quem quiser ouvir/ver. Fundamental é que Maingueneau esclarece que o discurso político não é explícito, mas ao jogar com categorias, palavras cheias de significado histórico, ativa os sentidos que cada um quiser. O professor afirmou ainda que sempre existirá a oposição esquerda X direita, embora seus discursos estejam em constante reconfiguração.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Tradição que sobrevive: Benzedeira atrai região para Bauru

"Como você está?", pergunta, com um abraço e um sorriso nos lábios. É assim, carinhosa, que a benzedeira Nadir Gomes da Silveira, de 76 anos, recebe quem vai até sua casa, no Aimorés, em busca de auxílio.
Vestida de branco, pede pra que me sente. O quarto surpreende, as crenças se mesclam. No "altar", rosários e santos católicos dividem espaço com Iemanjá, velas e fotografias de pessoas que já passaram por ali. Na parede, imagens de Jesus Cristo, do índio "Caboclo", e do "Preto Velho". Até Padre Marcelo Rossi está lá.
Admirada, "acordo" com ela pedindo pra que me concentre. Com a mão sobre minha cabeça, começa a rezar: Pai Nosso... Ave Maria... e outras palavras que às vezes soam como sussurros...
Depois das orações, enfim o diagnóstico. Quando necessário, ela ensina simpatias, oferece chás e a garrafada. De onde vem tanto conhecimento? "Não aprendi com ninguém. É um dom que Deus me deu". A mulher conta que descobriu seu poder de cura aos 14 anos e desde então jamais negou ajuda a alguém. "Eu era jovem e nem sabia. Quando punha a mão na cabeça de uma criança "ruim", ela melhorava. Depois disso nunca mais tive sossego, mas sou feliz", afirma.
Dona Nadir tem uma explicação pela grande procura desse "serviço": "Elas (as pessoas) vem aqui porque às vezes vale mais um benzimento que o remédio de farmácia. A fé remove montanhas, ela que vale e faz curar", acredita. Silveira revela que já tratou até de médicos, mas a maioria ainda vê com preconceito esse tipo de procedimento. E frisa: "Trabalho dentro da lei", ao comentar a procedência dos chás e apontar um alvará que autoriza o comércio de ervas e plantas medicinais. Somente a "garrafada" é produzida por ela.
A rezadeira diz que há poucos "colegas" atuando na cidade. "É difícil o dom que a tia tem. Tem alguns que trabalham na linha certa e na errada. A tia não. Eu só luto pra salvar as pessoas, um lar, "pegar" um serviço. Só pra pessoa ser feliz", explica.
Com a idade avançando, Dona Nadir preocupa-se em encontra um discípulo. "Vou lutar pra passar pra alguém. Tenho três filhas videntes, mas elas não querem nem saber. Não é fácil, não é qualquer um que tem o dom", lamenta.

Fama da rezadeira movimenta o Aimorés

Dona Nadir recebe em média 40 pessoas por dia, a maioria de Bauru e região. A família de João Antonio de Paula, de Pederneiras, conhece a benzedeira há 27 anos. O homem revela que já esteve ali por duas vezes, não em busca de cura, mas porque acha que "de vez em quando faz bem". "Quem vem muito é minha filha, Gisela, que hoje trouxe minha netinha Taíse", conta.
Gisela já esteve no local por pelo menos cinco vezes, e naquela manhã trouxe a filha que apresentava pequenas bolhas na pele. "Já levamos no médico, mas ele não sabia direito o que era, só receitou uma pomada, mas não resolveu", disse a mãe. Sua esperança é que a rezadeira indicasse algum "remédio" ou ensinasse alguma oração que a curasse. "Ela é atenciosa, sempre recebe a gente bem", destaca. A mulher também veio em busca de uma simpatia que melhorasse sua bronquite. "Espero que ela passe hoje (quinta-feira), porque senão teremos que voltar amanhã", disse João, ao explicar que algumas simpatias só podem ser ensinadas às sextas-feiras.
Pietro Ângelo Alexandre, tio de João, também "vive cheio de problemas". Além de diabetes, tem reumatismo, mal do qual já foi curado pelas rezas e os chás de Dona Nadir. "Os remédios do médico nunca deram resultado, mas da última vez que estive aqui, há alguns anos, ela me receitou os chás e a garrafada. Eu melhorei, mas como não continuei o tratamento, os problemas voltaram", justifica Alexandre.


Cura pros males do bolso e da alma

Além dos benzimentos e chás para problemas de saúde, Dona Nadir também recebe pessoas em busca de solução para seus problemas amorosos e, principalmente, trabalho. "O povo está louco por emprego. Aqui eu ensino a oração de Santo Expedito e a pessoa consegue".
No altar, junto com os santos e velas, há muitas fotografias, cartas, cópias de documentos e folhetos de propaganda de empresas que buscam sucesso financeiro. A benzedeira explica que não cobra por nenhum desses serviços, exceto o "responso". "Faço pedido pra namorado, mas esse eu cobro, R$ 15,00", informa.
Emílio da Silva, morador do Ferradura Mirim, é um dos que procura trabalho. "Vim pra arrumar um serviço", explica com fé, contando que sua família sobrevive com a aposentadoria de um de seus cinco filhos, que é doente. "Estava quase conseguindo um serviço. Quando disse onde morava, não deu certo", revela. Para Emílio, os piores males da humanidade são "a desigualdade, o preconceito e o desprezo".

Serviço: Dona Nadir atende de segunda à sexta, das 7h às 17hs, exceto nos feriados de Corpus Christi, Nossa Senhora Aparecida, Finados e Semana Santa.


Ervas medicinais ainda disputam mercado com remédios industrializados

O costume de utilizar ervas medicinais para curar doenças ainda é forte em Bauru. É o que se nota ao andar pela área central da cidade. Nas proximidades do calçadão, há pelo menos cinco "erveiros" - profissionais que comercializam essas plantas.
Celina Gomes da Silva, que possui uma banca de produtos naturais, conta que em 21 anos de atuação nunca soube de alguém que tenha passado mal ao utilizar os chás. Ela atribui o sucesso da fitoterapia ao fato de ser uma prática largamente utilizada, de resultados comprovados pela cultura popular.
Com o conhecimento adquirido ao longo dos anos, Celina sabe quais as ervas recomendadas pra cada caso. E demonstra sua notoriedade. Durante a reportagem, recebeu uma ligação pedindo que indicasse a melhor para o tratamento da artrite, ao que, imediatamente, respondeu: "Unha-de-Gato". Também receitou as folhas de Melissa pra uma cliente que procurava um calmante.
A maioria de sua clientela é composta por famílias das classes média e baixa. Celina diz que parte deles não tem acesso aos serviços médicos, ou quando tem, são ineficazes. Além disso, os preços dos chás ficam entre R$ 2,00 e R$ 5,00, diferentemente dos remédios industrializados, bem mais caros.

Dias contados
Mas, segundo Celina, a "medicina popular" está com os dias contados. Nos últimos meses, a vigilância sanitária intensificou a fiscalização e proibiu o comércio dessas mercadorias, alegando que é preciso haver um farmacêutico no local. Esperançosa, ela diz que vai tentar se unir com outros erveiros e recorrer, pois não tem condições de manter um profissional na banca, já que o pagamento de seu salário lhe custaria bem mais do que sua própria renda mensal. E afinal, "não tem porque proibir, nunca fez mal a ninguém", insiste.
Situação semelhante é vivida pelo ex-ambulante Sidmar Aguiri, o Natal, que há 6 anos comercializa produtos naturais. Há 4 anos, Natal conseguiu se estabelecer numa loja próxima à Praça Rui Barbosa. Segundo ele, "o chá dava dinheiro", mas há 8 meses deixou de comercializá-los, temendo os fiscais. "Agora só vendo temperos e cereais", explica.

Na lei
De olho nos clientes deixados pelos erveiros, muitas farmácias e drogarias expõem, lado a lado com os remédios industrializados tradicionais, as embalagens de ervas medicinais.
Entre as pioneiras está uma farmácia de manipulação, localizada no Calçadão da Batista. Há mais de 20 anos a empresa atua no comércio de produtos naturais, sempre com a presença de um profissional, mesmo antes da exigência da Diretoria de Saúde.
Para a farmacêutica Elaine Caroline Carlos, apesar de algumas ervas terem sua eficácia conhecida pela população, algumas ainda "tem efeitos não comprovados cientificamente, e podem até ser perigosas", alerta.
Como exemplo, cita o Hypericum Perforatum, conhecido como Erva de São João. "Ele atua como anti-depressivo, mas pode ser tóxico se não for usado corretamente. Por isso só vendo com receita médica", informa, acrescentando que alguns médicos costumam recomendar o uso de plantas medicinais ao seus pacientes. "São poucos, mas há pessoas que chegam aqui com receita", revela.
Para a consumidora assídua de fitoterápicos, Maria Neide Godoi Peral, as farmácias são mais confiáveis. "Aqui eu tenho a garantia da procedência dos chás. E alguns são muito parecidos, só o profissional pode reconhecer", explica. Maria conta que nunca utilizou produtos dos "erveiros", mas caso seja necessário, o fará somente se for uma planta que ela saiba reconhecer.



A matéria foi produzida para uma disciplina, da faculdade de jornalismo, mas acabou sendo publicada também na sessão Foca Online, da revista e portal Imprensa. O link é http://portalimprensa.uol.com.br/portal/foca_online/2006/05/22/imprensa3128.shtml. Só fico triste por não ter nenhuma foto da ocasião para ilustrar a matéria aqui também...

Eles nunca vêem o sol!




São Paulo, terra dos contrastes. Adentrando a principal metrópole do país, essa é a única definição que nos vêm à mente. Ao lado do glamour, dos grandes edifícios e outdoors que impressionam qualquer pessoa vinda de uma pequena cidade, centenas de barracos espremidos em encostas, as chamadas favelas, depósito de gente, dos filhos renegados. Sim, esquecidos. No universo do individualismo, não pensamos em mais ninguém. Nem neles. A não ser quando nos encaram de frente, na desigualdade estampadas nos congestionamentos das marginais: carrões e belas mansões protegidas por selvas artificiais convivem pacificamente ao lado dos pequenos casebres.
Mas o que será que tanto atrai na metrópole? Qual a sua magia? Seria o mito das oportunidades, a idéia de vencer em São Paulo, cidade que parece absorver qualquer pessoa que chegue com vontade de mudar de vida. Pelo que se vê, a realidade não é assim. As pessoas são jogadas, tal qual num grande depósito humano. Talvez reserva, para toda necessidade, seja pra conseguir votos, fazer merchandising ou mão-de-obra barata, se necessária.
Lá no famoso bairro Morumbi, por exemplo, na região que abriga a Rede Globo, um dos meios de comunicação mais poderosos, além de outros bancos, hotéis pode-se observar o paraíso e o inferno da capital. Dois mundos separados por um rio. Essa é a visão.
No shopping, que talvez dê o que comer a essa gente, um misto de encantamento e assombro. Como podem as diferenças conviver tão próximas. Tanto luxo e beleza para quem? Para uma parcela ínfima. Aqui a beleza para o pobre é só o brilho das lojas, grifes, vitrines. O resto não é vida. É correria, atropelo. É viver pra trabalhar e trabalhar pra viver. Dizem que essa metrópole nunca dorme, mas também, quem poderia dormir em meio a tanta desigualdade?
No mundo dos executivos, intelectuais, formadores de opinião, que sequer olham pra realidade a qual descrevem. Ao contrário, esbarram, a análise mais clara a respeito da vida nesse mundo de sedução e espanto surge da boca de um motorista. Numa conversa, um amigo lhe diz: “Aqui a vida nunca pára, eles sequer vêem o tempo passar”, ao que ele responde: “É, mas eles nunca vêem o sol!”.



Crônica, produzida em 2003, quando eu cursava jornalismo, para a disciplina de rádio, do professor Chamadoira, tendo como inspiração uma visita que eu fiz à capital, em busca de um estágio, quando a possibilidade de viver na cidade da garoa me chocou... a foto que ilustra a crônica encontrei numa rápida pesquisa no banco de imagens do Google, atribuida a T uca Vieira

Meu nome é superação!



Quem estava acostumado a ver Cuba Gooding Jr atuando somente em comédias ou filmes policiais deve ter se surpreendido com seu desempenho no emocionante Meu nome é Rádio (EUA, 2003). Cuba, no filme do diretor Michael Tollin interpreta um deficiente mental, chamado James Robert Kennedy, que sofre com o preconceito dos moradores da cidadezinha em que vive e com o deboche dos alunos do colégio por onde costumava passear.
Sua vida se resumia a rotina de perambular pelas ruas com um carrinho de supermercado, onde carregava tudo de interessante que encontrasse no caminho, sem ser realmente visto pelas pessoas, a não se como um obstáculo do qual deviam se desviar. Mas tudo começa a mudar quando ele conhece o técnico do time de futebol americano e professor da escola Harold Jones, interpretado por Ed Harris, que é o primeiro a enxergar o ser humano que há ali, naquele garoto que costumava observar de longe seus treinos.
Contudo, a aproximação dos dois se dá depois que James é humilhado por alguns jogadores do time, trancado num pequeno depósito. Harold encontra o jovem assustado, chorando num canto e fica comovido. O fato aqui serve bem de alegoria, exemplificando todo tipo de desrespeito que a sociedade geralmente dispensa aos que chamam de diferentes. Depois do episódio o homem sente que precisa ajudar aquele garoto, o qual não sabe sequer o nome, já que ele era de falar pouco. Sendo assim, Harold decide chamá-lo de Rádio, já que ele gostava muito desse objeto.
E assim os laços entre os dois vão se estreitando e o técnico se revelar um verdadeiro salvador, divisor de águas na vida de Rádio, responsável por sua inclusão. Mas esse processo não foi nada fácil. O professor enfrenta muitas pessoas e sua intolerância na tentativa de fazer com que Rádio tenha uma vida normal. Além de chamar Rádio para ser seu assistente no time, ele passa a convidá-lo para frequentar suas aulas no colégio. E Rádio, para seu orgulho, se dá bem em todas as situações, e evolui, passando até mesmo a conversar mais. Isso nos mostra como às vezes o que falta para uma pessoa é uma oportunidade, alguém que acredite em seu potencial, e que a olhe com um olhar mais humanizado.
Porém ,a mãe do jovem James desconfia dessa aproximação. Pudera, estava acostumada somente com os maus tratos e preconceitos, de uma cidade que desviava e fugia de seu filho quando o encontrava nas ruas, como se ele fosse um criminoso. Aqui ela representa também aqueles pais despreparados, ou com vergonha de seus filhos, situação corrente até os dias de hoje. Sabe-se que existem muitos deficientes reclusos em suas casas, por conta do medo que seus familiares tem da reação da sociedade, ou por pensarem que eles não serão capazes de levar uma vida normal.
Até mesmo a diretora mostra sua falta de preparo para lidar com a situação. Se no fundo tinha vontade de ajudar Rádio, não sabia lidar com o preconceito dos pais e com seus próprios temores em relação ao comportamento do garoto. Acreditava mesmo que seu convívio com seus outros alunos “normais” poderia ser perigoso. A situação ilustra bem o fato de que o maior problema hoje do processo de inclusão não é a falta de estrutura, mas o desconhecimento, o medo que muitos professores tem dos alunos que apresentam necessidades especiais. No fundo todos sabem que todos tem direito a educação e ao tratamento igual, mas ninguém sabe muito bem como lidar com isso e sentem-se desconfortáveis em lidar com uma pessoa com problemas mentais, por medo de suas reações e por acreditarem que eles não serão capazes de aprender. Ignoram o fato de que eles podem sim ter suas habilidades desenvolvidas, algumas até certo ponto, mas que principalmente tem direito ao respeito e a convivência com a sociedade.
E no filme o persistente Harold consegue provar para mãe de Rádio que suas intenções são as melhores, de consertar algo que acredita ser errado – o fato do jovem ser excluído da sociedade. Já com a diretora o processo foi mais difícil, visto que com o tempo os pais vão até ela reclamar, do temor que sentem em relação ao jovem, e que o time da escola não está bem por conta de sua influência, dizendo que o melhor era afastá-lo do convívio com outros jovens. Harold, que praticamente havia adotado Rádio, chega até a pensar em largar o cargo, por conta do preconceito que sentem.
Se o filme choca, retrata bem o que sociedade faz com o diferente ou com aqueles que considera menores: mais velhos, doentes, outras raças ou com menor poder aquisitivo. E a situação se agrava quando a pessoa apresenta mais de uma dessas características, como na cena em que Rádio sai distribuindo os presentes que ele ganhou no natal. A polícia o prende: como um negro e com problemas mentais poderia distribuir tantos presentes? Mais um ponto para ser discutido.
Mas o bom é que com o passar do tempo Rádio passa a ser cada vez mais querido pelas pessoas. Na verdade as trata melhor do que ele é tratado. Assim, em certa altura do filme, um dos personagens diz que não são eles que estão ensinando Rádio, mas sim que ele é que está lhes ensinando. E outra das lições que ele ensina é que devemos dar mais importância a família, aos laços e contato humano.
Rádio, enfim, retrata a maioria das pessoas, que apesar de serem humanos, por vezes de coração enorme, não são tratadas com o mínimo de respeito, tampouco carinho, como acontece com deficientes, negro, velhos, pobres e outras pessoas que acabam sendo diminuídas nesse mundo do ter, do preconceito, da intolerância. E o filme nos mostra a diferença que uma amizade, um olhar amoroso e o mínimo de atenção faz na vida de uma pessoa, podendo transformar realidades. Tanto que no final temos a mensagem de superação, e Rádio hoje é um dos melhores técnicos de futebol americano. E essa é a grande mensagem do filme, que todos somos capazes, basta que nos dêem uma oportunidade e um olhar mais humano.

Resenha do filme Meu nome é rádio, produzida para a disciplina de Comunicação e expressão